Presidente do BC alerta que migração para crédito de pior qualidade limita efeito das taxas de juros

Especialistas alertam que inclusão financeira acelerada pós-pandemia criou segmento de devedores menos sensível às mudanças de taxas de juros
Crédito de qualidade inferior limita efeito da política monetária
A expansão do endividamento brasileiro revela um desafio estrutural para as autoridades monetárias: uma porção crescente de devedores migrou para modalidades de crédito menos responsivas aos aumentos de taxa de juros. Esse movimento, conforme indicam especialistas, reduz a efetividade dos mecanismos tradicionais de controle da demanda.
Inclusão financeira acelerou a migração de modalidades
O período pós-pandemia consolidou duas transformações simultâneas no mercado de crédito brasileiro. De um lado, a adoção em massa do cartão de crédito como ferramenta cotidiana de consumo. De outro, a democratização do acesso financeiro via plataformas digitais, incluindo Pix e serviços oferecidos por fintechs.
Embora essa inclusão represente avanço importante, ela criou segmentos populacionais que buscam crédito em condições menos favoráveis. Pessoas com histórico limitado de relacionamento bancário frequentemente recorrem a operações com taxas superiores ou modalidades informais, tornando-se inelásticas às mudanças de política monetária tradicional.
Cartão de crédito como porta de entrada para endividamento
O crescimento da utilização de cartão reflete tanto maior acesso quanto mudança comportamental. Para consumidores com acesso limitado ao crédito tradicional, essa modalidade oferece conveniência, mesmo diante de custos financeiros elevados.
Quando os juros aumentam, essa população frequentemente sustenta o consumo via rotativo ou busca alternativas ainda mais caras, em vez de reduzir gastos. Esse padrão distinto dificulta a transmissão dos efeitos esperados pela política monetária restritiva.
Heterogeneidade do mercado de crédito brasileiro
A economia brasileira enfrenta realidade complexa: coexistem devedores altamente sensíveis às mudanças de taxas e outro grupo praticamente impermeável a essas alterações. Os primeiros respondem racionalmente aos aumentos de juros, reduzindo demanda por crédito. Os segundos, imersos em modalidades de pior qualidade, mantêm padrões de tomada de crédito com pouca variação.
Essa fragmentação implica que políticas monetárias convencionais possuem alcance parcial, exigindo coordenação com medidas regulatórias e de inclusão financeira responsável para ampliar efetividade.




