Estudo mostra que pacientes diagnosticadas mais tarde precisam de cirurgias mais agressivas. Renda e local de moradia interferem no acesso ao rastreamento.

Maura Bandeira esperou quatro anos pelo diagnóstico; Rita Santana recebeu em três meses. Estudos comprovam que atraso implica tumores maiores e menor chance de cura.
O tempo até o diagnóstico do câncer de mama interfere diretamente nas chances de sobrevida das pacientes. Maura Bandeira, 54, descobriu um carcinoma em estágio avançado apenas em 2019, quatro anos depois de relatar sintomas aos médicos do posto de saúde em Alvorada, na região metropolitana de Porto Alegre. Rita Santana, 53, diagnosticada em 2022 em Gravataí, a 17 quilômetros dali, recebeu confirmação de tumor em pouco mais de três meses.
As duas foram tratadas pelo Sistema Único de Saúde (SUS) na capital gaúcha. Maura precisou retirar completamente sua mama direita; quando a pele rejeitou a prótese de silicone, passou quase dois anos com um buraco aberto onde antes tinha o seio. Rita conseguiu retirar o tumor e alinhar os seios com o mesmo tamanho, formato e posição.
Desde 2015, Maura sentia a mama densa, pesada e inchada e, às vezes, um caroço, apesar das mamografias anuais. Ela relatava isso aos médicos do posto de saúde, mas, como o exame de imagem não indicava nada errado, ouvia que era impressão sua. Durante quatro anos, conforme Maura, nenhum profissional fez o exame clínico das mamas.
Um ginecologista brincou que ela era a “dona da sacolinha” — Maura andava com uma sacolinha azul com todos os exames acumulados — e decidiu examiná-la. No dia seguinte, ela foi encaminhada com urgência à rede pública, e o carcinoma foi confirmado.
Rita teve processo mais rápido. Sentiu um caroço no autoexame, monitorou por uma semana e, como não sumiu, foi ao posto de saúde do bairro. Na primeira consulta, o médico fez o exame físico e disse que era um tumor. A mamografia mostrou 2,4 cm, e a biópsia confirmou o carcinoma.
Segundo Luiz Ayrton Santos Júnior, presidente da Federação Brasileira de Instituições Filantrópicas de Apoio à Saúde da Mama (Femama), renda, escolaridade, local de moradia e raça interferem em quem vai ser diagnosticada mais cedo ou mais tarde. O diagnóstico tardio implica tumores maiores, cirurgias e tratamentos mais agressivos e menor chance de cura.
A Sociedade Brasileira de Mastologia (SBM) orienta que o rastreamento inclua mamografia e exame clínico, ambos anuais. Conforme a entidade, não pode ser feito apenas um deles.



