Fatia da dívida atrelada à Selic desafia controle do Banco Central

Lula Marques/ Agência Brasil

Presidente Gabriel Galípolo destaca impacto da alta da Selic sobre títulos públicos e dificuldades na política monetária

Gabriel Galípolo alerta que a fatia da dívida pública atrelada à Selic pode dificultar o combate à inflação pelo Banco Central.

Fatia da dívida atrelada à Selic e seus efeitos na política monetária

A fatia da dívida pública brasileira atrelada à Selic, atualmente próxima de 50%, foi um dos pontos centrais da análise feita por Gabriel Galípolo, presidente do Banco Central, durante a audiência na Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) do Senado em 19 de maio. Essa composição particular da dívida pública, que inclui principalmente as Letras Financeiras do Tesouro (LFT), tem impacto direto na eficácia do controle da inflação pelo BC. Ao elevar a Selic, o Banco Central aumenta a remuneração desses títulos, o que pode estimular o consumo e a demanda, dificultando o objetivo de desacelerar a economia para conter a alta de preços.

A resiliência da economia brasileira frente aos juros elevados

Galípolo destacou que, apesar da taxa Selic estar em 14,50% ao ano, a economia brasileira apresenta sinais de resiliência, como o desemprego baixo e o crescimento real da renda dos trabalhadores. Essa combinação coloca pressão adicional sobre a inflação, especialmente em um cenário em que a demanda continua aquecida. O BC precisa, portanto, calibrar os juros com cuidado para tentar devolver a inflação à meta de 3%, mas enfrentando o desafio de que aumentos na Selic elevam a renda dos detentores de títulos atrelados à taxa.

Choques de oferta e desancoragem das expectativas de inflação

Durante a audiência, o presidente do Banco Central também comentou sobre os efeitos de choques recentes de oferta, como o aumento dos preços do petróleo causado pela guerra no Oriente Médio e o fenômeno climático El Niño. Esses eventos têm provocado aumento nas expectativas de inflação tanto no curto quanto no médio prazo, com projeções para 2028 também em alta, o que é incomum e preocupa os agentes econômicos. Essa desancoragem pode dificultar ainda mais a condução da política monetária, já que as expectativas de inflação influenciam decisões de consumo e investimento.

Desafios estruturais do Banco Central na fiscalização e autonomia financeira

Outro ponto abordado por Galípolo foi a necessidade urgente de autonomia financeira para o Banco Central. Segundo ele, a autarquia perdeu cerca de 1.300 servidores na última década, enquanto o número de instituições financeiras sob sua supervisão aumentou significativamente. Com recursos limitados, o BC corre o risco de ter que escolher quais áreas fiscalizar, comprometendo a efetividade da regulação e da política monetária. Essa redução do quadro funcional ocorre paralelamente a um aumento das demandas regulatórias, o que pode ”asfixiar” a capacidade de atuação da instituição.

Perspectivas para a política monetária e o controle da inflação

O Banco Central promete encerrar o ciclo de alta de juros ainda em um patamar restritivo, com cortes graduais previstos para o futuro próximo. No entanto, a combinação da alta fatia da dívida atrelada à Selic, a resiliência da economia, os choques de oferta e as limitações institucionais impõem obstáculos consideráveis. A condução da política monetária dependerá de uma gestão cuidadosa, monitoramento constante das expectativas e um esforço para conquistar maior autonomia e capacidade operacional. O desafio será equilibrar o controle da inflação sem comprometer a recuperação econômica e a estabilidade financeira do país.

Fonte: www.infomoney.com.br

Fonte: Lula Marques/ Agência Brasil

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