Arcebispa Sarah Mullally reconhece envolvimento institucional em esquema de adoções forçadas no pós-guerra britânico, mas linguagem recebe críticas de ativistas

A instituição religiosa emite pedido de desculpas por operação de lares que separaram mães solteiras de bebês entre décadas de 1950 e 1970 na Inglaterra.
A Igreja Anglicana reconheceu formalmente, nesta quinta-feira (18), sua participação em um sistema que forçosamente separou aproximadamente 185 mil crianças de suas mães solteiras para adoção durante o período pós-guerra britânico. O comunicado da arcebispa Sarah Mullally marca o primeiro pedido de desculpas institucional da organização religiosa sobre práticas de adoção forçada que perduraram por décadas.
O Sistema de Lares para Mães e Bebês
A operação ocorria através de estabelecimentos conhecidos como “lares para mães e bebês”, onde mulheres grávidas ou recém-parturientes eram encaminhadas, muitas vezes sem consentimento. Um relatório publicado simultaneamente ao pedido de desculpas indica a existência de aproximadamente 200 desses lares entre 1949 e 1976, operados sob supervisão da Igreja da Inglaterra.
Denominações religiosas funcionavam como intermediárias entre o Estado britânico e as famílias, implementando uma política estruturada que visava punir mulheres jovens cuja maternidade ocorria fora do casamento. As mulheres permaneciam nesses locais por períodos que podiam estender-se por vários anos, submetidas a condições laborais degradantes.
Condições de Vida e Trabalho Compulsório
A arcebispa Mullally admitiu que as mulheres e meninas acolhidas em tais instituições eram expostas a trabalhos braçais como mecanismo de punição. O regime interno combinava trabalho doméstico obrigatório, atividades religiosas intensivas e penitência estruturada, configurando um ambiente punitivo disfarçado de assistência social.
Documentos governamentais divulgados previamente descreveram o tratamento desumano infligido às futuras mães durante gestação e parto, frequentemente meninas menores de dezoito anos. Os impactos psicológicos dessa separação traumática persistem nas gerações de pessoas adotadas, causando sofrimento duradouro documentado em investigações posteriores.
Resposta Institucional e Críticas
O Movimento dos Adotados Adultos, organização que representa indivíduos afetados por adoções compulsórias, criticou duramente o teor do comunicado da Igreja Anglicana. Segundo porta-vozes do movimento, a linguagem empregada permanece “minimizadora, passiva e distanciadora”, falhando em reconhecer adequadamente os danos específicos causados às vítimas.
A declaração de Mullally afirma: “Lamentamos profundamente a dor, o trauma e o estigma vividos —e ainda carregados— por muitas pessoas devido às práticas históricas de adoção em lares afiliados à Igreja da Inglaterra”. A arcebispa também dirigiu-se diretamente às vítimas: “A vergonha que foram obrigadas a sentir foi errada. Vocês não têm nada do que se envergonhar. Pelo contrário, estamos profundamente envergonhados por isso ter acontecido a pessoas sob os cuidados de nossas comunidades”.
Expectativas de Responsabilização Estatal
Especialistas e ativistas esperam que o governo britânico também formalize pedido de desculpas em nome do Estado, prática já realizada por nações como Irlanda e Austrália em anos recentes. A participação governamental no esquema foi documentada, já que as políticas de adoção compulsória representavam decisão estatal implementada com colaboração institucional.
A comparação com programas similares administrados pela Igreja Católica na Irlanda evidencia padrão transnacional de envolvimento religioso em políticas de adoção forçada durante o século XX. Ambos os casos refletem estruturas sociais que estigmatizavam maternidade fora do casamento e utilizavam instituições religiosas para executar políticas coercitivas.
Legado Traumático e Demandas Futuras
As consequências dessa política afetam ainda hoje indivíduos que vivenciaram separação materna na infância. Traumas herdados incluem questionamentos identitários, distúrbios emocionais e dificuldades em estabelecer relacionamentos significativos.
Movimentos de advocacy demandam não apenas desculpas, mas compensações financeiras, acesso a registros de adoção e reconhecimento legal das violações sofridas. A Igreja Anglicana, ao emitir seu comunicado, não apresentou plano específico de reparações ou medidas concretas além do reconhecimento formal dos eventos.





