Pesquisa da XP revela mudança radical no posicionamento de multimercados sobre câmbio, taxas e risco Brasil em junho

Pesquisa com 25 gestoras de fundos mostra inversão completa de posicionamento: 80% agora apostam em alta do dólar, contra 100% vendidos em abril.
O mercado de gestoras multimercados experimenta uma reversão estratégica sem precedentes em seus posicionamentos sobre dólar e taxa Selic, conforme pesquisa realizada entre 8 e 12 de junho com 25 operadores, divulgada dias antes da decisão do Comitê de Política Monetária.
Transformação radical no posicionamento de câmbio
A mudança mais expressiva ocorreu nas apostas relacionadas à moeda americana. Em abril, um consenso quase unânime caracterizava a estratégia dominante: 100% das gestoras mantinham posições vendidas em dólar, configurando o maior acordo observado na série histórica do levantamento. Dois meses depois, o cenário inverteu-se radicalmente, com 80% dos fundos adotando posições compradas na divisa e apenas 20% persistindo na aposta pela sua desvalorização.
Esta transformação não representa simples oscilação tática. Conforme análise de especialistas, reflete reconhecimento de possível mudança estrutural no regime de fluxos de capital global, migrando de uma proteção otimista em ativos domésticos para uma postura defensiva.
Expectativas divergentes sobre redução de juros
Regarding taxa de juros, o posicionamento apresenta maior coesão, mas com sinais de enfraquecimento da convicção. Oitenta e quatro por cento das gestoras apostam em redução de 0,25 ponto percentual na Selic, levando-a a 14,25%, enquanto 16% antecipam manutenção na atual marca de 14,5%.
A redução esperada representa continuidade do ciclo de afrouxamento monetário iniciado em período anterior. No entanto, a proporção de gestoras confiantes na extensão deste processo apresenta-se menor do que a observada nas posições cambiais, sugerindo incerteza sobre a profundidade do ciclo de queda.
Fatores geopolíticos e macroeconômicos influenciam reversão
A pesquisa foi conduzida antes da divulgação de acordo de paz entre Estados Unidos e Irã, evento que poderia ter alterado percepções de risco global e alocações de portfólio.
O ambiente de mercado em junho diferenciava-se substancialmente de abril. Fluxos de investimento global concentravam-se em financiamento de setores ligados a inteligência artificial, impulsionando bolsas asiáticas. Simultaneamente, a bolsa brasileira operava em queda e perdia competitividade entre economias emergentes.
No plano doméstico, pressões inflacionárias ressurgiram com alta do petróleo, renovando receios sobre sustentabilidade de redução de taxas de juros. O contexto de ano eleitoral intensificou incertezas sobre sinais fiscais e manteve expectativas de taxa de juros elevated.
Real perde apelo como instrumento de otimismo
O comportamento das posições em moeda brasileira exemplifica claramente a inversão estratégica. As apostas compradas em real desabaram de 91% em abril para 31% em junho. Inversamente, posições vendidas na moeda saltaram de 9% para 69%, indicando proteção defensiva massiva contra possível depreciação.
Segundo avaliação dos analistas, este deslocamento não configura simples teste de convicção, mas sinaliza percepção de alteração no padrão estrutural de fluxos de capitais. O real, que havia funcionado como principal vetor de otimismo com “kit Brasil” — incluindo elevação de bolsa doméstica, valorização cambial e recalibragem de juros — transformou-se em instrumento de hedging contra riscos externos.
Implicações para o ciclo de política monetária
A redução de convicção nas apostas de extensão do ciclo de queda de juros sugere que, apesar da expectativa majoritária de corte no próximo encontro do Copom, os gestores antecipam potencial desaceleração ou pausa no processo. Pressões persistentes sobre inflação doméstica, ambiente externo instável e incertezas políticas constituem fatores que explicam a cautela observada.
Os próximos encontros da autoridade monetária enfrentarão desafios para balancear objetivos de redução de taxa real de juros com necessidades de controle inflacionário, especialmente em contexto de volatilidade cambial elevada e fluxos de capital instáveis.





