Falta de transparência de algoritmos alimenta especulações sobre integridade eleitoral

Especialista da UERJ diz que plataformas fecharam acesso a dados desde escândalo Cambridge Analytica em 2018

Falta de transparência de algoritmos alimenta especulações sobre integridade eleitoral
Nikolas diz que postagem sobre Nordeste no Instagram ficou sem som Foto: Reuters

Especialista analisa como opacidade dos algoritmos de redes sociais prejudica confiança no processo eleitoral brasileiro

A falta de transparência nos algoritmos das grandes plataformas digitais está no centro das preocupações sobre a integridade do processo eleitoral brasileiro. Em entrevista ao Hora H desta terça-feira (20), Carlos Affonso Souza, professor de Direito da UERJ (Universidade do Estado do Rio de Janeiro) e diretor do Instituto de Tecnologia e Sociedade (ITS-Rio), analisou as falhas de moderação da Meta e os desafios que representam para o ambiente eleitoral.

Carlos Affonso contextualizou o problema a partir do escândalo da Cambridge Analytica, em 2018. Naquele episódio, um pesquisador com acesso a dados do Facebook repassou essas informações a uma empresa de marketing político. Segundo o especialista, desde então, as plataformas de tecnologia e redes sociais passaram a fechar progressivamente o acesso de pesquisadores e da sociedade civil aos seus dados e mecanismos internos.

“Ao invés de saber mais sobre como funcionam esses ambientes online, a gente sabe cada vez menos”, afirmou Carlos Affonso.

Para o especialista, a ausência de clareza sobre o funcionamento dos algoritmos de recomendação e distribuição de conteúdo é especialmente crítica em períodos eleitorais. Sem transparência, cria-se combustível para especulações sobre favorecimento de uma parte e não entrega de determinado conteúdo.

“Sem ter clareza, é o combustível para você criar toda sorte de especulação sobre uma parte estar sendo favorecida, sobre determinado conteúdo não ser entregue”, disse Carlos Affonso.

Ele avaliou que as próprias empresas contribuíram para os danos observados hoje, ao adotarem uma postura de fechamento em vez de transparência. Para o especialista, as eleições brasileiras podem representar um ponto de virada, criando pressão para que as plataformas ampliem a transparência sobre seus algoritmos de recomendação e distribuição.

Carlos Affonso identificou uma dupla fonte de insegurança no ambiente eleitoral. De um lado, a opacidade dos ambientes digitais. De outro, a atuação das autoridades reguladoras, que, segundo ele, também contribuiu para o clima de desconfiança. O especialista citou como exemplo as chamadas “guerras de decisões monocráticas” observadas tanto no Supremo Tribunal Federal quanto no Tribunal Superior Eleitoral.

Ele destacou como exemplo o canal “Exército do Lula”, criado por Janones, que foi bloqueado por decisão do ministro Nunes Marques, liberado por decisão do ministro Cueva do TSE, bloqueado novamente e depois liberado. Para Carlos Affonso, esse cenário de mudanças de regras a poucos dias do segundo turno intensificou o ambiente de insegurança.

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