Serviço da dívida supera os 25% registrados na recessão de 2015 e 2016, enquanto inadimplência bate recorde

Serviço da dívida consome 30% da renda do setor privado. Inadimplência total chegou a 5% em agosto, novo recorde.
O economista Fernando Fenólio, da gestora WHG, alertou que o serviço da dívida consome 30% da renda do setor privado — soma de empresas e famílias — em levantamento apresentado nesta terça-feira (29) durante a live Overview. O percentual supera os 25% registrados no auge da recessão de 2015 e 2016.
Os dados divulgados pelo Banco Central revelam deterioração do crédito. Em agosto, a inadimplência da carteira total do Sistema Financeiro Nacional chegou a 5%, um novo recorde, com alta de 0,1 ponto percentual no mês e de 0,9 ponto em 12 meses. Entre as pessoas físicas, avançou para 6%, também o maior nível da série. Nas empresas, permaneceu estável em 3,3%.
Parte da pressão sobre as empresas tem origem nas captações realizadas quando a Selic chegou a 2% ao ano. Segundo Fenólio, companhias se endividaram naquele período com a expectativa de que a taxa voltaria a um patamar próximo de 8%. A trajetória dos juros, porém, foi mais desfavorável do que a prevista.
Como muitas dessas dívidas são pós-fixadas e acompanham o CDI, a alta das taxas aumentou os pagamentos exigidos das empresas e reduziu o dinheiro disponível para investimentos e outras despesas. Pelos cálculos da WHG, as companhias desembolsam, em média, R$ 35 em juros e amortizações para cada R$ 100 tomados em crédito — o maior patamar da série histórica. Entre as grandes empresas com acesso ao mercado de capitais, o valor é de R$ 32, o nível mais elevado em 15 anos.
A expansão do mercado de capitais mudou a distribuição do risco de crédito. Na crise de 2015 e 2016, uma parcela maior das perdas decorrentes de calotes e renegociações permanecia concentrada no setor bancário. Agora, a participação de investidores em debêntures e outros títulos privados distribui o risco entre os fundos de investimento e seus clientes.



