Captações por debêntures caem 25% em oito meses de 2026, atingindo menor patamar desde 2019

Investidores mais cautelosos exigem maior remuneração para comprar dívida de infraestrutura. Captações por debêntures somaram R$ 170 milhões em agosto.
A deterioração das condições no mercado de crédito está dificultando a captação de recursos pelas companhias de infraestrutura. Investidores mais cautelosos diante de crises corporativas e perdas nas carteiras passaram a exigir maior remuneração para comprar dívida, enquanto as empresas reduziram novas emissões.
Em agosto, as captações por debêntures incentivadas somaram apenas R$ 170 milhões, o menor volume mensal desde janeiro de 2019, segundo a Anbima (Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais). Nos oito primeiros meses de 2026, chegaram a R$ 72,8 bilhões, uma queda de 25,2% em relação aos R$ 97,3 bilhões do mesmo período de 2025.
O ajuste aparece também nos títulos que já circulam no mercado. Um levantamento da Vitrify mostra que, entre janeiro e setembro, o spread — a diferença entre a remuneração da debênture e a de um título público (NTN-B) de duração equivalente — aumentou 48 pontos-base, ou 0,48 ponto percentual, na mediana dos papéis comparáveis.
A abertura atingiu 90% dos títulos, e quase metade registrou aumento superior a 50 pontos-base. O saneamento apresentou a maior abertura mediana de spread no ano, de 141 pontos-base, seguido por redes de telecomunicações, com 93, e ferrovias, com 84.
A pressão sobre o saneamento ocorre após a piora da percepção de risco em torno da Aegea e de suas concessionárias. A companhia atrasou a divulgação dos resultados e promoveu revisões contábeis, especialmente em Águas do Rio. Os ajustes envolveram critérios mais conservadores para reconhecer receitas e perdas esperadas com contas a receber, reduzindo receitas, aumentando provisões e elevando a relação entre dívida e resultado operacional apresentada ao mercado.
O setor enfrenta um desafio estrutural: concentrar investimentos nos primeiros anos das concessões, para cumprir metas contratuais, enquanto o retorno se distribui por décadas. Esse descasamento amplia a necessidade de financiamento antes que os projetos atinjam sua plena geração de caixa.
Na avaliação de especialistas, a crise da Raízen foi um marco desse movimento. A companhia protocolou, em março, um pedido de recuperação extrajudicial para reestruturar cerca de R$ 65 bilhões em dívida, abalando a disposição dos investidores para assumir risco em setores de infraestrutura.



