Levantamento analisou 31.699 cartuchos em 29 casos judiciais entre 2018 e 2025; 51,9% das munições brasileiras tinham códigos de rastreabilidade institucional

O Comando Vermelho recebeu munições de fuzil que haviam sido originalmente compradas por Forças Armadas e instituições de segurança, aponta o Instituto Sou da Paz.
O Instituto Sou da Paz identificou que o Comando Vermelho recebeu parte de seu arsenal de munições de fuzil a partir de cartuchos originalmente comprados por Forças Armadas e instituições de segurança pública. A constatação vem de um levantamento que analisou 31.699 cartuchos vinculados à facção em 29 casos judiciais, entre 2018 e 2025.
De 31.205 munições originais de fábrica analisadas para identificar o país de fabricação, 40,9% eram brasileiras. Dentro desse grupo, 51,9% tinham códigos de rastreabilidade institucional, indicando que os cartuchos haviam sido adquiridos por Forças Armadas ou instituições de segurança e, em algum momento, deixaram o controle estatal.
O levantamento mostra, porém, que identificar a origem da munição nem sempre significa conseguir descobrir onde ocorreu o desvio. Dos 119 códigos de rastreabilidade identificados pelos pesquisadores, apenas 34 puderam ser associados à instituição compradora. Em 85 casos, o comprador legal não pôde ser identificado.
Segundo Bruno Langeani, consultor sênior do Instituto Sou da Paz, o cenário revela problemas na guarda e no controle do material adquirido pelo poder público. “O Brasil tem um problema com relação à guarda e controle de munições que são vendidas para as Forças Armadas e polícias e que acabam sendo desviadas para a mão do crime organizado.”
Langeani afirma que o próprio processo de rastreamento ainda é pouco utilizado nas investigações. Dos 29 casos estudados, foram poucos aqueles em que houve uma apuração efetiva para descobrir de onde as munições haviam saído.
O Brasil possui um sistema de marcação que permite, no caso da munição destinada às Forças Armadas e às instituições de segurança, associar o cartucho a um lote e ao comprador institucional. O problema é que essa informação não está disponível de forma ampla para consulta e, em muitos casos, a investigação não consegue completar o caminho entre o cartucho apreendido e a instituição que o adquiriu.
Langeani afirma que o Instituto defende que os dados sobre códigos e compradores sejam públicos. “A gente está falando de uma munição comprada com dinheiro público e cujo desvio, enfim, trata-se aí de corrupção e de uma corrupção que tem uma consequência muito grande para o fortalecimento do crime organizado.”
O Instituto protocolou em 2023 um pedido de acesso à informação para obter a relação de códigos e compradores.



