Texto compara público que se identifica com protestos de Chico Buarque e jovens desconectados dessa referência cultural.

Colunista propõe leitura alternativa sobre eleição de domingo, argumentando que disputa envolve sobrevivência de oligarquia política e cultural.
Artigo de opinião publicado na Gazeta do Povo compara duas realidades entre eleitores brasileiros em véspera de eleição.
Um texto imagina cena em Copacabana durante ato musical convocado por Caetano Veloso: uma estudante de 20 anos enxuga os olhos ao ouvir acordes de canção de protesto composta quando seus pais ainda não tinham nascido. A jovem nunca vivenciou a ditadura, não conheceu a censura e nunca viu um exilado desembarcar no Galeão, porém chora “com a fidelidade de quem herdou uma saudade alheia”. Segundo o texto, é “um choro de segunda mão, transmitido em sala de aula como se transmitem as relíquias de família”.
O artigo então projeta cenário distinto a quase 2 mil quilômetros, em galpão de máquinas no Mato Grosso: rapaz da mesma idade, filho de pequeno produtor, confere no celular cotação da soja, preço do diesel e previsão de chuva para plantio. Se perguntado sobre Chico Buarque, talvez se recorde de nome que a professora de Literatura pronunciava com voz formal. “Não o despreza. Simplesmente não sente a sua falta.”
O colunista propõe leitura alternativa sobre a eleição de domingo. Enquanto outros descrevem o pleito como plebiscito sobre lulopetismo, bolsonarismo ou sobre a própria democracia, o texto sugere que o que está em jogo é “a sobrevivência ou o fim de uma oligarquia política e cultural e, com ela, de um imaginário que governou o país por quatro décadas”.
Segundo o artigo, diante de novos atores, tempos e referências, essa oligarquia “já não argumenta. Esperneia, vocifera e não tem vergonha de mentir descaradamente”. O autor referencia o conceito de comunidades imaginadas do intelectual Benedict Anderson para argumentar que a Nova República foi fundada inteiramente contra o regime militar, convertido em símbolo das trevas das quais o país emergia.
O texto caracteriza o que se vê em Copacabana, nos jingles e nos editoriais como “desespero reacionário” de uma estrutura política e cultural que perde hegemonia diante de novos públicos e referências.



