Instituto Sou da Paz identifica munição desviada de Forças Armadas ao Comando Vermelho

Levantamento analisou 31.699 cartuchos em 29 casos judiciais entre 2018 e 2025; 51,9% das munições brasileiras tinham códigos de rastreabilidade institucional

Instituto Sou da Paz identifica munição desviada de Forças Armadas ao Comando Vermelho
Patrulha da Polícia Militar brasileira no Complexo da Maré, RJ, em 30 de março de 2014. Foto: Buda Mendes/Getty Images

O Comando Vermelho recebeu munições de fuzil que haviam sido originalmente compradas por Forças Armadas e instituições de segurança, aponta o Instituto Sou da Paz.

O Instituto Sou da Paz identificou que o Comando Vermelho recebeu parte de seu arsenal de munições de fuzil a partir de cartuchos originalmente comprados por Forças Armadas e instituições de segurança pública. A constatação vem de um levantamento que analisou 31.699 cartuchos vinculados à facção em 29 casos judiciais, entre 2018 e 2025.

De 31.205 munições originais de fábrica analisadas para identificar o país de fabricação, 40,9% eram brasileiras. Dentro desse grupo, 51,9% tinham códigos de rastreabilidade institucional, indicando que os cartuchos haviam sido adquiridos por Forças Armadas ou instituições de segurança e, em algum momento, deixaram o controle estatal.

O levantamento mostra, porém, que identificar a origem da munição nem sempre significa conseguir descobrir onde ocorreu o desvio. Dos 119 códigos de rastreabilidade identificados pelos pesquisadores, apenas 34 puderam ser associados à instituição compradora. Em 85 casos, o comprador legal não pôde ser identificado.

Segundo Bruno Langeani, consultor sênior do Instituto Sou da Paz, o cenário revela problemas na guarda e no controle do material adquirido pelo poder público. “O Brasil tem um problema com relação à guarda e controle de munições que são vendidas para as Forças Armadas e polícias e que acabam sendo desviadas para a mão do crime organizado.”

Langeani afirma que o próprio processo de rastreamento ainda é pouco utilizado nas investigações. Dos 29 casos estudados, foram poucos aqueles em que houve uma apuração efetiva para descobrir de onde as munições haviam saído.

O Brasil possui um sistema de marcação que permite, no caso da munição destinada às Forças Armadas e às instituições de segurança, associar o cartucho a um lote e ao comprador institucional. O problema é que essa informação não está disponível de forma ampla para consulta e, em muitos casos, a investigação não consegue completar o caminho entre o cartucho apreendido e a instituição que o adquiriu.

Langeani afirma que o Instituto defende que os dados sobre códigos e compradores sejam públicos. “A gente está falando de uma munição comprada com dinheiro público e cujo desvio, enfim, trata-se aí de corrupção e de uma corrupção que tem uma consequência muito grande para o fortalecimento do crime organizado.”

O Instituto protocolou em 2023 um pedido de acesso à informação para obter a relação de códigos e compradores.

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